Crônicas ilustradas 4

Como já disse: passei no teste. Sorte. Se tivesse sido examinado por qualquer um dos outros estaria reprovado. Mas Chico gostava das minhas músicas.

Eu fiz a prova com um violão emprestado, pois tinha vergonha do meu violão. Ele era branco, “sujo”, e tinha vários adesivos que meu pai trazia das lojas com que ele fazia negócio: Óleo Bardhal… Hermes Macedo… (a Mesbla da época) Mikey Mouse… tinha de tudo. Comprado numa loja de penhores na travessa Jesuíno Marcondes, o braço parecia um berimbau de tão empenado, e as cordas eram “originais”…

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Mas o empréstimo havia sido só para a prova, e quando as aulas começaram tive que levar o meu. Chico, além de professor é médico psicanalista, e sabia muito bem a importância do teatro para a educação do homem. Na primeira aula, repito: PRIMEIRA aula, logo após eu retirar o violão de uma capa podre, ele começou a teatralizar algo como Medéia, dizendo que aquilo era uma grande ofensa aos deuses da música… que aquele violão estava sofrendo e que deveríamos sacrificá-lo para abreviar seu sofrimento… retirou o instrumento da minha mão e foi em direção à sacada (sim, a sala tinha uma sacada) para “lançar aquele infeliz” ao abismo do esquecimento… E eu, quase chorando…

Mas aí ele lembrou da minha prova, e perguntou se eu tinha composto a música que apresentara na prova naquele violão. Como eu disse que sim, ele retornou, e, ainda teatralmente, disse que ali “havia um mistério”… Eu prometi (praticamente jurei) que arrumaria um violão melhor e foram dois anos de muita conversa, muita informação e muito aprendizado.

Aprendi inclusive, que a gente tem que aprender a trocar as cordas do seu instrumento porque aquele canalha do Ed. Tijucas ficava com as cordas importadas para ele e colocava as Canário no violão dos alunos…

Quando Chico foi de mudança para a Alemanha, seus alunos tiveram que ser redistribuídos e minhas aulas passaram a ser com o professor que aterrorizava todos os alunos: Orlando Fraga.

Outra primeira aula inesquecível.